Reflexões e roda de conversa: trabalho de campo em tempos de conflitos nos mundos em transição
Nesta roda de conversa, o ponto de partida serão as experiências obtidas pelas pesquisadoras e pesquisadores durante os trabalhos de campo realizados em diferentes contextos marcados por conflitos. A partir de pesquisa linguística desenvolvida junto ao povo Yanomami, acerca das dinâmicas de desmatamento, toxicidade e resistências indígenas no Baixo Tapajós, e junto a povos de terreiro em diversas partes do Brasil, serão abordados temas como: as particularidades de fazer campo em contextos conflituosos marcados pela ascensão da extrema-direita, violências étnico-raciais e em meio a degradação ambiental; o lugar do pesquisador no campo; os “erros” e “acertos”; a produção compartilhada de conhecimento; a produção de imagens; como realizar trabalho de campo sozinho ou com parcerias. Todas as experiências e trocas estabelecidas com pesquisadores, movimentos sociais, sociedade civil, poder público e universidade.
Autores : Fabio Zuker , Joana Autuori , Kowawa K. Apurinã-Pietra , Leonardo VieiraComunicações
-
Trabalho de campo e conflitos na Amazônia
A partir de uma pesquisa de campo de longa duração realizada na região do Baixo Tapajós (Pará), esta fala propõe refletir sobre os significados, possibilidades, limites e implicações éticas do fazer antropológico em contextos marcados por ampla destruição ecológica e por formas persistentes de resistência local. A reflexão se organiza em três eixos: (1) os desafios de conduzir trabalho de campo junto a grupos locais alinhados à extrema direita; (2) a vivência e análise de territórios adoecidos pelo uso intensivo de agrotóxicos — caracterizados na pesquisa como espaços de “expulsão por asfixia”; e (3) as dinâmicas de resistência indígena na defesa dos territórios e na criação de espaços voltados à multiplicação das formas de vida.
Autor(es): Fabio Zuker
-
Campo e mobilização dos povos tradicionais de terreiro na busca por garantia de direitos
A experiência que norteará a minha participação nesta roda de conversa é fruto do acúmulo de quinze anos de trabalho de campo, junto/com/sobre os processos de mobilização dos povos tradicionais de terreiro na busca por garantia de direitos, na cidade do Rio de Janeiro e outras capitais brasileiras. Para tal, os eixos abordados serão: 1) As dimensões em ser “de dentro”; 2) Entre falas, dores e silêncios na prática antropológica; 3) O lugar do antropólogo nas lutas, resistências e existências dos povos tradicionais de terreiro nos contextos de perseguição e violações dos direitos. O objetivo desses eixos é explicitar algumas questões que foram e ainda são relevantes para o trabalho de campo para todos os pesquisadores que se propõem a estabelecer uma interlocução com esses povos, independentemente de serem discentes de graduação ou pós-graduação, ou até mesmo doutores. Esta é uma interlocução entre muitos mundos que possuem dinâmicas distintas, devido aos seus contextos, mas que nunca pararam as suas transições.
Autor(es): Leonardo Vieira
-
Trabalho de campo com línguas de grupos minorizados e desafios envolvidos em processos de revitalização de línguas
A manutenção, a revitalização e a retomada de línguas são, atualmente, temas de importância central para linguistas que atuam com línguas minorizadas. No contexto da Década Internacional das Línguas Indígenas e, portanto, de um maior protagonismo dos povos indígenas na luta por direitos, linguistas têm sido convocados a apoiar processos de salvaguarda de línguas ameaçadas. Nesta fala, a pesquisadora parte de sua experiência de trabalho de campo na linguística com povos indígenas de duas etnias - Sanöma (Yanomami), grupo de recente contato e monolíngue na língua Sanöma e um grupo Guarani Nhandewa monolíngue em português - para abordar temas relacionados ao trabalho com línguas de grupos minorizados e desafios envolvidos em processos de revitalização de línguas.
Autor(es): Joana Autuori
-
Etnografia Encantada, como nova abordagem do trabalho de campo
A palavra que compartilho trata-se da proposta da Etnografia Encantada, uma metodologia de investigação que nasce da vivência, da espiritualidade e da ancestralidade dos povos indígenas, especialmente em contraposição aos métodos rígidos da etnografia ocidental.Não se trata de criar um novo método dentro da antropologia, mas de deslocar o centro epistêmico e incorporar outros modos de conhecer, sentir e narrar o mundo. A Etnografia Encantada rompe com os regimes coloniais de alteridade ainda vigentes na antropologia e propõe um exercício etnográfico que é também espiritual, político e ancestral. O fazer não se guia por protocolos fixos, mas por pactos, por escutas sensíveis e por trocas que envolvem tanto o visível quanto os encantados e os feitiços indígenas, em uma encruzilhada de encontros. As experiências com os Botocudos, os Tupinambá, os Apurinã, entre outros povos, mostram que não se trata apenas de pesquisar o outro, mas de se reconhecer no processo — afetivamente, espiritualmente e coletivamente. É urgente pluralizar os acessos e reconhecimentos dentro da antropologia feita no Brasil, desmontando a hegemonia racial e epistêmica ainda presente na produção científica. A Etnografia Encantada afirma que os saberes dos pajés, rezadeiras, anciões e encantados são parte legítima da produção de conhecimento, não como folclore ou cultura exótica, mas como ciência e civilização milenar.Rejeitamos o gueto antropológico e os enquadramentos ocidentais que tentam domesticar nossos saberes. Nossa história não é linear, é feita de memórias sociais e territórios interrompidos. O que propomos é uma reinvenção dos mundos, uma ciência que brota do chão, da floresta e dos encantos. Como disse Trouillot, é preciso sair do lugar determinado e retomar os territórios que nos foram arrancados. Ou a gente se expande, ou a gente se extingue.
Autor(es): Kowawa K. Apurinã-Pietra
Enviado pela conta: test1