MESA 1 O trabalho de campo num mundo em transição
A proposta da mesa é discutir abordagens contemporâneas do trabalho de campo a partir da antropologia e da história, duas ciências humanas e sociais que colocam, no centro de suas reflexões, dinâmicas dos "campos de investigação", bem como modelos e práticas que desenvolvem para constituí-los, abordá-los, observá-los, objetivá-los e analisá-los. A mesa questionará a tradição “naciocêntrica” das ciências sociais brasileiras, trazendo experiências de trabalho de campo multissituado, pesquisas na África e entre comunidades afrodescendentes, escritas colaborativas, questões éticas na produção do conhecimento e entrelaçamentos entre pesquisas acadêmicas e militância política.
Autores : Ana Lucia Pastore Schritzmeyer , Stefania CaponeComunicações
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Migrações e construções religiosas entre África e Europa. Articulando campos, métodos transnacionais e novas escritas em um mundo em transição.
Resumo: Suivre les constructions religieuses des migrants originaires d’Afrique Subsaharienne vers l’Afrique méditerranéenne et l’Europe n’était pas forcement mon idée de départ. Mais au moment de ma thèses sur les Sénégalais mourides entre le Sénégal et la France, les frontières se fermait déjà et l’Europe de Schengen installait son modèle de sécurisation des frontières et de contrôle des migrations, qui depuis lors n’a fait que se renforcer. Mes terrains se sont alors adaptés à ces nouvelles contraintes que subissaient les migrants et pour lesquels les pays d’Afrique méditerranéennes devenaient des espaces d’installation, tout comme pour nombre d’entre eux l’Amérique latine. Je suis ainsi passée de l’Afrique Subsaharienne au mondes arabes et de l’islam au christianisme en faisant une anthropologie par le bas où les routes et les régimes de mobilités nous permettent de mieux comprendre les constructions religieuses contemporaines. Je parlerai de ces terrains et des méthodes que j’ai utilisées pour m’adapter et construire une anthropologie religieuse du mouvement, mais j’évoquerai également d’autres formes de transmissions. En effet, sensible aux émotions que je rencontrais dans les lieux de cultes et les espaces de prière au Maroc lors de mes recherches auprès des migrants chrétiens originaires d’Afrique subsaharienne, je me suis attachée à trouver les moyens de les traduire. Les mots ne me semblaient plus suffirent et, dès 2016, j’ai commencé à travailler avec un photographe. Dans cette communication je retracerai les étapes de ce travail empirique à plusieurs regards, laissant une place à une personne ayant un autre métier dans une observation partagée. Je reviendrai sur les pratiques de terrains partagés, les nouveaux protocoles mis en place avec le photographe et les acteurs religieux, ainsi que la fabrication d’un nouvel objet entre art et science permettant de transmettre sur plusieurs fronts une analyse des migrations africaines et des constructions religieuses au Maroc. Sur un sujet aussi médiatisé que les migrations, travailler empiriquement avec d’autres personnes (artistes, leaders religieux, théologiens) permet de décaler notre regard, d’enrichir nos approches épistémologiques et de s’autoriser d’autres espaces de transmission.
Autor(es): Sophie Bava
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Colaborações e parcerias: Desafios para a pesquisa de campo e para o compartilhamento de seus resultados
Resumo: Já faz algum tempo que as relações entre os historiadores e seus pesquisados têm sido redefinidas e tensionadas. Discussões sobre coautoria entre saberes diferentes e hierarquizados, assim como sobre o estabelecimento de parcerias e compromissos na construção das pesquisas de campo e dos seus resultados, seguem sendo realizadas em meio a constantes desafios. No campo do historiador que trabalha com a história pública e a história oral, especialmente com interlocutores de comunidades quilombolas, tradicionais e periféricas, as entrevistas, a observação e a pesquisa participante passaram a merecer muito mais atenção e investimentos para a formação dos pesquisadores. Pretendo apresentar nesta reflexões sobre o papel/local do pesquisador e dos resultados, acadêmicos e sociais, de sua pesquisa no mundo atual.
Autor(es): Martha Abreu
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Do prescrito ao vivido: questões éticas no trabalho de campo etnográfico
A partir de dois contextos de pesquisa de campo distintos, tanto temporal quanto espacialmente — o comércio transfronteiriço realizado por mulheres entre Moçambique e África do Sul e as práticas políticas e dimensões íntimas da vida de ativistas negras em territórios periféricos na cidade de São Paulo —, proponho refletir sobre questões éticas envolvidas na produção de conhecimento,especialmente diante da imprevisibilidade que marca um trabalho de campo atravessado por sofrimento, violência efronteiras legais e morais. O convite é refletir sobre a importância dos marcos ético-legais vigentes nos dois contextos mencionados, em diálogo com os conhecimentos e as moralidades em curso, para que as prerrogativas institucionais e suas lógicas não suprimam outras formas de legitimidade, nem convertam relações dinâmicas de pesquisa em vínculos contratuais e formais. Trata-se, assim, de pensar como sujeitos e suas histórias, bem como as próprias questões da pesquisa, são compartilhados na dinâmica do campo, sendo mutuamente afetados e tecidos por uma ética que se constrói relacionalmente e, por isso mesmo, é implicada. Propõe-se, portanto, que os processos vividos em campo oferecem lentes pelas quais é possível ampliar noções sobre ética em pesquisa,assumindo que conflitos são parte constitutiva do fazer etnográfico, cujos efeitos e responsabilidades permanecem, mesmo após o encerramento formal do trabalho de campo.
Autor(es): Alessandra Kelly Tavares de Oliveira
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Entre papéis e pessoas: A construção de uma Antropologia enredada, ou como se pesquisa a construção de uma política pública para povos tradicionais de matriz africana
Resumo: Trata-se de uma reflexão acerca de uma abordagem multidimensional para a análise de situações de conflito, de modo a evitar a estereotipação dos sujeitos e instituições envolvidas. A conflitualidade social é tratada como espaço privilegiado para observar os embates entre valores, normas e práticas, tanto nos registros institucionais quanto nos modos informais de administração. Com base na etnografia de processos de mobilização social e nas respostas institucionais, por meio de políticas públicas, enfatiza-se a observação participante em organizações do sistema de justiça e segurança, bem como o monitoramento das formas contemporâneas de ativismo, particularmente nas redes sociais, mas não só, em casos classificados como de intolerância e/ou racismo religioso. A pesquisa, desenvolvida desde 2008, centra-se na análise na atuação de lideranças dos povos de terreiro, evidenciando o papel ambivalente do Estado brasileiro: ao mesmo tempo agente de reconhecimento e de violação de direitos constitucionais assegurados desde 1988. Essa dualidade revela tensões permanentes entre o "dever-ser" das políticas públicas e a realidade prática de sua execução, destacando o papel dos dispositivos institucionais na atualização cotidiana da chamada "máquina estatal". Desenvolveu-se o conceito de "antropologia enredada" para descrever uma prática etnográfica que se constrói no entrelaçamento entre a pesquisa acadêmica e a militância política, em cenários de conflito étnico-racial-religioso. Essa perspectiva reconhece que a própria definição dos recortes teórico-metodológicos já implica um posicionamento frente aos problemas sociais, que se tornam públicos a partir da ação dos movimentos sociais. Assim, problematiza-se as práticas de intervenção política e de pesquisa acadêmica num cenário de construção de alternativas democráticas e antirracistas, revelando o papel crítico da antropologia na formulação e transformação das políticas públicas no Brasil contemporâneo. Compreende-se que o enredamento se delineia inicialmente pela definição dos recortes teórico-metodológicos, tanto quanto pelos envolvimentos e sentimentos que afloram na esfera pública quando se está diante de problemas sociais, que se convertem em públicos por meio da militância. Não se trata apenas de pensar sobre os impactos em termos de resultados, mas principalmente sobre as condições de elaboração de pesquisas empíricas e de formulações teóricas nesse contexto.
Autor(es): Ana Paula Mendes de Miranda
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