Trabalho com línguas à beira de extinção: para além do ‘salvamento’
Autor(es) : Kristina BalykovaNa linguística, há um consenso sobre a necessidade e a urgência de documentar e estudar línguas ameaçadas. Porém, na prática, as línguas mais vulneráveis são muitas vezes deixadas de lado. Trata-se, sobretudo, das línguas lembradas por pouquíssimos falantes idosos e/ou preservadas como línguas de herança entre os mais jovens. Elas podem não ser mais usadas no dia a dia ou não ser mais ligadas à vida ritual tradicional. Além disso, podem se manter apenas em contextos urbanizados e não em comunidades tradicionais. Então, cria-se a ideia de que essas línguas só podem ser objetos da “linguística de salvamento” (salvage linguistics), que é basicamente “fazer o que dá”, e “o que dá” necessariamente seria um estudo mais raso do que no caso de uma língua mais vital. Com base na minha experiência de campo e pesquisa com o Guató, uma língua falada por dois idosos em Mato Grosso do Sul, argumentarei que essa visão é errada e contraprodutiva, pois valoriza as línguas apenas enquanto reflexos mais ou menos fieis do passado e não como sistemas funcionais em constante transformação. Defenderei que as línguas à beira de extinção podem ser estudadas de vários pontos de vista e merecem ser objetos de trabalhos acadêmicos de mais alto nível.