Etnografia Encantada, como nova abordagem do trabalho de campo
Autor(es) : Kowawa K. Apurinã-PietraA palavra que compartilho trata-se da proposta da Etnografia Encantada, uma metodologia de investigação que nasce da vivência, da espiritualidade e da ancestralidade dos povos indígenas, especialmente em contraposição aos métodos rígidos da etnografia ocidental.Não se trata de criar um novo método dentro da antropologia, mas de deslocar o centro epistêmico e incorporar outros modos de conhecer, sentir e narrar o mundo. A Etnografia Encantada rompe com os regimes coloniais de alteridade ainda vigentes na antropologia e propõe um exercício etnográfico que é também espiritual, político e ancestral. O fazer não se guia por protocolos fixos, mas por pactos, por escutas sensíveis e por trocas que envolvem tanto o visível quanto os encantados e os feitiços indígenas, em uma encruzilhada de encontros. As experiências com os Botocudos, os Tupinambá, os Apurinã, entre outros povos, mostram que não se trata apenas de pesquisar o outro, mas de se reconhecer no processo — afetivamente, espiritualmente e coletivamente. É urgente pluralizar os acessos e reconhecimentos dentro da antropologia feita no Brasil, desmontando a hegemonia racial e epistêmica ainda presente na produção científica. A Etnografia Encantada afirma que os saberes dos pajés, rezadeiras, anciões e encantados são parte legítima da produção de conhecimento, não como folclore ou cultura exótica, mas como ciência e civilização milenar.Rejeitamos o gueto antropológico e os enquadramentos ocidentais que tentam domesticar nossos saberes. Nossa história não é linear, é feita de memórias sociais e territórios interrompidos. O que propomos é uma reinvenção dos mundos, uma ciência que brota do chão, da floresta e dos encantos. Como disse Trouillot, é preciso sair do lugar determinado e retomar os territórios que nos foram arrancados. Ou a gente se expande, ou a gente se extingue.