Entre papéis e pessoas: A construção de uma Antropologia enredada, ou como se pesquisa a construção de uma política pública para povos tradicionais de matriz africana
Autor(es) : Ana Paula Mendes de MirandaResumo: Trata-se de uma reflexão acerca de uma abordagem multidimensional para a análise de situações de conflito, de modo a evitar a estereotipação dos sujeitos e instituições envolvidas. A conflitualidade social é tratada como espaço privilegiado para observar os embates entre valores, normas e práticas, tanto nos registros institucionais quanto nos modos informais de administração. Com base na etnografia de processos de mobilização social e nas respostas institucionais, por meio de políticas públicas, enfatiza-se a observação participante em organizações do sistema de justiça e segurança, bem como o monitoramento das formas contemporâneas de ativismo, particularmente nas redes sociais, mas não só, em casos classificados como de intolerância e/ou racismo religioso. A pesquisa, desenvolvida desde 2008, centra-se na análise na atuação de lideranças dos povos de terreiro, evidenciando o papel ambivalente do Estado brasileiro: ao mesmo tempo agente de reconhecimento e de violação de direitos constitucionais assegurados desde 1988. Essa dualidade revela tensões permanentes entre o "dever-ser" das políticas públicas e a realidade prática de sua execução, destacando o papel dos dispositivos institucionais na atualização cotidiana da chamada "máquina estatal". Desenvolveu-se o conceito de "antropologia enredada" para descrever uma prática etnográfica que se constrói no entrelaçamento entre a pesquisa acadêmica e a militância política, em cenários de conflito étnico-racial-religioso. Essa perspectiva reconhece que a própria definição dos recortes teórico-metodológicos já implica um posicionamento frente aos problemas sociais, que se tornam públicos a partir da ação dos movimentos sociais. Assim, problematiza-se as práticas de intervenção política e de pesquisa acadêmica num cenário de construção de alternativas democráticas e antirracistas, revelando o papel crítico da antropologia na formulação e transformação das políticas públicas no Brasil contemporâneo. Compreende-se que o enredamento se delineia inicialmente pela definição dos recortes teórico-metodológicos, tanto quanto pelos envolvimentos e sentimentos que afloram na esfera pública quando se está diante de problemas sociais, que se convertem em públicos por meio da militância. Não se trata apenas de pensar sobre os impactos em termos de resultados, mas principalmente sobre as condições de elaboração de pesquisas empíricas e de formulações teóricas nesse contexto.