Do prescrito ao vivido: questões éticas no trabalho de campo etnográfico
Autor(es) : Alessandra Kelly Tavares de OliveiraA partir de dois contextos de pesquisa de campo distintos, tanto temporal quanto espacialmente — o comércio transfronteiriço realizado por mulheres entre Moçambique e África do Sul e as práticas políticas e dimensões íntimas da vida de ativistas negras em territórios periféricos na cidade de São Paulo —, proponho refletir sobre questões éticas envolvidas na produção de conhecimento,especialmente diante da imprevisibilidade que marca um trabalho de campo atravessado por sofrimento, violência efronteiras legais e morais. O convite é refletir sobre a importância dos marcos ético-legais vigentes nos dois contextos mencionados, em diálogo com os conhecimentos e as moralidades em curso, para que as prerrogativas institucionais e suas lógicas não suprimam outras formas de legitimidade, nem convertam relações dinâmicas de pesquisa em vínculos contratuais e formais. Trata-se, assim, de pensar como sujeitos e suas histórias, bem como as próprias questões da pesquisa, são compartilhados na dinâmica do campo, sendo mutuamente afetados e tecidos por uma ética que se constrói relacionalmente e, por isso mesmo, é implicada. Propõe-se, portanto, que os processos vividos em campo oferecem lentes pelas quais é possível ampliar noções sobre ética em pesquisa,assumindo que conflitos são parte constitutiva do fazer etnográfico, cujos efeitos e responsabilidades permanecem, mesmo após o encerramento formal do trabalho de campo.