Intelectuais em circulação: internacionalização das ciências humanas e sociais no diálogo entre o Brasil e a França
A mesa-redonda discutirá a circulação internacional de intelectuais entre o Brasil e a França, particularmente, no campo das ciências humanas e sociais . A proposta é evidenciar, com base em pesquisas empíricas, que a compreensão de seus deslocamentos e intercâmbios se fortalece quando se considera a posição que ocupam em ambos os espaços intelectuais, e não apenas em um deles. São essas posições que estruturam o sentido das trajetórias, das trocas e das viagens, orientam expectativas e estratégias, e projetam os efeitos das colaborações científicas sobre a produção do conhecimento e a distribuição de poder no campo intelectual, neste caso, entre países que ocupam posições distintas em termos de legitimidade e poder científico no espaço transnacional. A mesa discutirá como essas assimetrias condicionam as interações, quais estratégias são mobilizadas para lidar com hierarquias e como tais dinâmicas reconfiguram as práticas, as agendas e os sentidos da cooperação intelectual.
Autores : Bruno Bontempi , Marcia Consolim , Miguel PalmeiraComunicações
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Intercâmbios de pesquisadores da Faculdade de Educação da USP e do Institut National de Recherche Pédagogique na reconfiguração da historiografia e do campo educacional no Brasil.
Financiadas por um convênio firmado em 1987, entre o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a USP, docentes e discentes da Faculdade de Educação, contando com bolsas, buscaram aprimoramento, diálogo e bibliografia sobre tópicos educacionais em instituições de ensino superior, museus e centros de pesquisa na Europa e na América do Norte. As professoras que então desenvolviam investigações e ministravam disciplinas em história da educação naquela faculdade engajaram seus projetos individuais em um programa institucional de pesquisa denominado Programa de Pesquisas em Cultura Escolar Brasileira, escolhendo como destinos de suas viagens de estudo o Service d’Histoire de l'Éducation (SHE), departamento do Institut National de Recherche Pédagogique (INRP), e a École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS). Na França, frequentaram acervos, assistiram a seminários, realizaram entrevistas e estabeleceram cooperação e sociabilidade com especialistas, gestores e pesquisadores, como Pierre Caspard, diretor de pesquisas do SHE, Anne-Marie Chartier e Jean Hébrard, pesquisadores do INRP. A presente comunicação tem como objetivos: caracterizar o INRP e o SHE como instituições tuteladas e a serviço do Ministério da Educação da França, o que define a natureza de seus temas de pesquisa, assim como sua vocação internacionalista; narrar os eventos e as relações de sociabilidade que, antecedendo a escolha das intercambistas, mostraram-se decisivos para que depositassem nesses destinos suas expectativas de inovar a pesquisa e a escrita em história da educação; apontar os efeitos bilaterais de curto e médio prazo, tais como a formação de redes e convênios, a intensificação de viagens, os ganhos da capital simbólico de parte a parte. A base documental é composta por fontes oficiais do INRP/SHE, artigos de periódicos, relatórios de intercâmbio, depoimentos publicados e entrevistas com protagonistas dos dois países. Como a produção, validação e transmissão do conhecimento fazem parte de processos sociais, uma de suas dimensões relevantes é a dos intercâmbios entre atores individuais e coletivos, cujas intervenções são afetadas ou moldadas por redes e instituições. Por meio desta investigação, revelam-se fluxos culturais de dupla mão, duplo proveito e mútua afetação das comunidades de pesquisadores de Brasil e França, os quais produziram efeitos sobre a produção do conhecimento e a configuração do campo acadêmico em ambas as comunidades.
Autor(es): Bruno Bontempi
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A Institucionalização das Ciências Humanas e Sociais na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP: Sociologia, Antropologia, Psicologia
O diálogo intelectual entre a França e o Brasil na primeira metade do século XX já foi amplamente analisado pela literatura especializada. Também é amplamente conhecida a importância de Fernando de Azevedo na fundação e institucionalização das primeiras cadeiras dos cursos de ciências sociais e filosofia na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade de São Paulo. Menos conhecidas são as forças em disputa na origem da criação das cadeiras de Sociologia em relação àquelas correspondentes a saberes fronteiriços. No período de fundação, a Sociologia era uma ciência prestigiada que contava com amplo apoio dos fundadores da Universidade de São Paulo - em particular por Azevedo e pelos proprietários do jornal O Estado de S. Paulo -, enquanto a Antropologia e a Psicologia (social) detinham menor prestígio. A partir de uma análise documental - Anuários da FFCL, correspondência, artigos na imprensa, obras e memórias - pretende-se analisar as tensões envolvendo a criação e a nomeação de professores para essas cadeiras, consideradas por Azevedo subordinadas à Sociologia. No caso da Antropologia, analiso a indicação de Lévi-Strauss para a cadeira de Sociologia II, em 1935, e os conflitos advindos de seu projeto de fundar uma cadeira ou um Instituto de Antropologia de inspiração norte-americana. No caso da Psicologia, analiso a indicação de Anita Cabral para ocupar a cadeira de Psicologia após a partida de Jean Maugué (1944) e de Otto Klineberg (1947). Concluo que ambas as disciplinas sofreram bloqueios de diversos tipos na antiga FFCL, cujo resultado foi a reprodução de uma hierarquia clara entre, de um lado, a Sociologia e, de outro lado, a Antropologia e a Psicologia (social). Essas hierarquias institucionais permitem esclarecer, ainda, a circulação dessas disciplinas no campo editorial brasileiro, uma vez que a Psicologia se difundiu preferencialmente em coleções ou editoras pedagógicas ou católicas, enquanto a Antropologia circulou tendencialmente em coleções ou editoras ensaísticas.
Autor(es): Marcia Consolim
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