A Institucionalização das Ciências Humanas e Sociais na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP: Sociologia, Antropologia, Psicologia
Autor(es) : Marcia ConsolimO diálogo intelectual entre a França e o Brasil na primeira metade do século XX já foi amplamente analisado pela literatura especializada. Também é amplamente conhecida a importância de Fernando de Azevedo na fundação e institucionalização das primeiras cadeiras dos cursos de ciências sociais e filosofia na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade de São Paulo. Menos conhecidas são as forças em disputa na origem da criação das cadeiras de Sociologia em relação àquelas correspondentes a saberes fronteiriços. No período de fundação, a Sociologia era uma ciência prestigiada que contava com amplo apoio dos fundadores da Universidade de São Paulo - em particular por Azevedo e pelos proprietários do jornal O Estado de S. Paulo -, enquanto a Antropologia e a Psicologia (social) detinham menor prestígio. A partir de uma análise documental - Anuários da FFCL, correspondência, artigos na imprensa, obras e memórias - pretende-se analisar as tensões envolvendo a criação e a nomeação de professores para essas cadeiras, consideradas por Azevedo subordinadas à Sociologia. No caso da Antropologia, analiso a indicação de Lévi-Strauss para a cadeira de Sociologia II, em 1935, e os conflitos advindos de seu projeto de fundar uma cadeira ou um Instituto de Antropologia de inspiração norte-americana. No caso da Psicologia, analiso a indicação de Anita Cabral para ocupar a cadeira de Psicologia após a partida de Jean Maugué (1944) e de Otto Klineberg (1947). Concluo que ambas as disciplinas sofreram bloqueios de diversos tipos na antiga FFCL, cujo resultado foi a reprodução de uma hierarquia clara entre, de um lado, a Sociologia e, de outro lado, a Antropologia e a Psicologia (social). Essas hierarquias institucionais permitem esclarecer, ainda, a circulação dessas disciplinas no campo editorial brasileiro, uma vez que a Psicologia se difundiu preferencialmente em coleções ou editoras pedagógicas ou católicas, enquanto a Antropologia circulou tendencialmente em coleções ou editoras ensaísticas.